sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

NERUDA E GUEVARA

Tristeza na morte de um herói

Os que vivemos esta história, esta morte e ressurreição da nossa esperança enlutada,

Os que escolhemos o combate e vimos crescer as bandeiras, soubemos que os mais calados

Foram os nossos únicos heróis e que depois das vitórias chegaram os ferrenhos

Enche a boca de arrogância e de proezas salivares.

O povo moveu a cabeça:

E o herói voltou ao seu silêncio.

Mas o silêncio se enlutou até afogar-nos no luto quando morria nas montanhas.

O fogo ilustre de Guevara.

O comandante foi morto numa ravina.

Ninguém disse esta boca é minha.

Ninguém chorou nos povos índios.

Ninguém subiu aos campanários.

Ninguém levantou os fuzis, e cobraram a recompensa aqueles que veio para salvar

O comandante foi assassinado.

O que aconteceu, medita o contrito, com estes acontecimentos?

E não se diz a verdade, mas se cobre com papel esta miséria de metal.

Só se abria o caminho e quando chegou a derrota foi como um machado que caiu

No tanque do silêncio.

A Bolívia voltou ao seu rancor, aos seus oxidados gorilas, à sua miséria intransigente,

E como bruxos assustados os sargentos da desonra, os generalitos do crime,

Esconderam com eficiência o corpo do guerrilheiro como se o morto os queimasse.

A selva amarga engoliu os movimentos, os caminhos, e onde passaram os pés.

Da milícia exterminada hoje as lianas aconselharam uma voz verde de raízes

E o veado selvagem voltou à folhagem sem estampidos.

Pablo Neruda

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